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Das decisões que tomamos do nada

Estava eu, há umas semanas, a vir para casa de bicicleta e dei por mim a pensar nos tratamentos de fertilidade. Tinha tido a primeira consulta pré-tratamentos e vinha a pensar que não queria fazer punções, que não queria fazer FIV (fertilização in vitro). A Bia foi concebida à terceira sessão de IIU (inseminação intra-uterina) e nós temos oportunidade de fazer 6 sessões. Se não acontecesse, não acontecia.

Entretanto sigo um blogue de uma mulher que andou nos trâmites da infertilidade anos, sem sucesso e decidiu que para ela chegava. A quantidade de pessoas que lhe disse para não desistir, que ela tinha de continuar, que poderia ser no próximo tratamento... Chateou-me, incomodou-me! A sério! É nestas alturas que devemos apoiar os outros ou não?! Não seria a hora de lhe dizer que ela é uma mulher forte, que fez tudo o que conseguiu, que lhe desejamos as maiores felicidades e força numa fase que, deduzo, não seja fácil?!

Eu percebi que era incapaz passar anos nisto. Passei 3 meses para ter a Bia e digo-vos que, tendo sido levado com algum humor e leveza, não é algo fácil, não é prazeroso, é desafiador, é demasiado controlador, é uma valente bosta. E sabem que mais? Não há problema nenhum em decidir que não queremos mais, em delinear um limite, só porque outros fazem 15 ciclos não quer dizer que nós tenhamos de fazer o mesmo ou mais!

É uma pena a infertilidade deixar tanta gente desconfortável. Que casos que acabam sem uma gravidez de termo e um bebé nos braços sejam vistos com maus olhos e algo que se deva esconder. Que não se consiga aceitar e apoiar quem chegou ao seu limite.

Como em tudo, julga-se demais sem se compreender!




Infertilidade round 2

Desde Dezembro que deixei de tomar a pilula, ainda comprei uns testes de ovulação que cheguei a fazer mas ainda tenho um há uns meses na gaveta. Também tenho uma app e cada vez registo menos coisas, e porquê? Porque já tinha decidido que ia deixar a pílula e depois logo se via, quando viéssemos de férias em Junho e nada tivesse acontecido contactava o centro de fertilidade e pronto.
No meio disto tudo veio o CoViD19, um altura mais complicada com a Bia (os terrible horrible 2), deixei de registar tanta coisa mas ainda registo frequentemente. Já liguei para o centro de fertilidade (precisamente porque já deduzia as listas de espera), o plano passará por usar a fórmula da última vez e depois avaliar. Na altura que liguei a lista de espera estava entre 3 e 6 meses, por isso quando tiver a próxima mesntruação é ligar e ver o que nos espera.
Já me debati sobre se é a melhor altura para o fazer mas, na realidade, é tão boa quanto outra qualquer, não acredito que vá acontecer já e se puder ser muito honesta não é algo que me transtorna... Gostava que a Bia não fosse filha única, gostava de ter outro filho, gostava que fosse quando ela ainda não é adolescente, mas na realidade estou muito calma e sem grandes preocupações.
Estou a escrever isto em tempo real mas não sei se irei reportar novidades em tempo real, sei que se tiver uma perda gestacional gostaria de partilhar por aqui e gostaria de partilhar o percurso todo seja ele qual for, agora se o farei em tempo real ou não logo vejo..

No futuro...

Queremos ter mais filhos, na realidade mais 1. Parei de tomar a pílula no fim de Dezembro e até virmos das nossas férias em Junho não me vou meter em tratamentos. Se acontecer aconteceu, se não acontecer voltaremos aos tratamentos, quando houver vaga. Claro que gostava que não fosse preciso injecções novamente e ecos regulares e espéculos mas se for como da última vez também não é o fim do mundo.
Apesar de tudo, desta vez estou mais relaxada em relação a isto, o facto de saber porque é difícil engravidar mas que não é impossível traz alguma tranquilidade e liberta um bocado da pressão. Não quer dizer que não ande a fazer por isso, a bem ou a mal sei quando ovulo e em que meses não ovulo, comecei a usar óleos essenciais para ajudar na regulação dos ciclos (na pior das hipóteses não resulta na mesma mas mal não faz).



Quando desistir

Tinha isto para escrever há algum tempo e lá me decidi a fazê-lo.
Quando desistir dos tratamentos de infertilidade?
Não sei, não tive de chegar a esse ponto da primeira vez, mas no dia do terceiro tratamento, íamos nós para casa de bicicleta e eu disse ao Ricardo "se desta vez voltar a ser negativo vamo-nos inscrever numa agência de adopção".
Sou uma pessoa muito racional, mesmo sendo optimista sou racional. Um processo de adopção pode levar anos, não fazia questão em adoptar um bebé pequeno o que facilitaria em termos de espera, mas como até gostava de adoptar porque não colocar-nos em lista de espera? Acabei por engravidar nesse ciclo.
A decisão de quando desistir é muito pessoal, depende de quanto conseguimos aguentar. Já ouvi/li/acompanhei imensas histórias difíceis e em que penso "não aguentava nem metade", mas na realidade não sei, se calhar até aguentava, porque só estando na situação é que podemos saber.
Sim quero ter outro filho, sim adorava não ter de fazer tratamentos mas se for como da última vez nem é assim tão mau... Não se pode escolher e o que for, será.
A quem anda a lidar com infertilidade, força! Não há certos nem errados desde que façam o que sentem que têm de fazer, independentemente do que terceiros pensam ou acham...


Porque é que não publiquei os posts de infertilidade em tempo real?

Eu não acho que me andem a sabotar a vida à distância, não foi por isso. Mas até calhou relativamente bem ter engravidado no terceiro tratamento, que no nosso caso sendo apenas inseminação artificial, ocorreu em 3 meses e assim dava tempo para ir relatando e no fim anunciar que resultou.
Quando soube que estava grávida decidi que ia começar o relato, mesmo que não corresse bem poderia dar esperança a alguém.
O motivo de não publicar em tempo real foi algo pensado e ponderado. Não sabia se estava preparada para partilhar as minhas emoções e lidar com comentários ao mesmo tempo. Não sabia quanto tempo ia demorar, não sabia nada e por isso decidi jogar pelo seguro e apenas partilhar quando tive um positivo.
Também já me apercebi que algumas pessoas escolhem como eu publicar em diferido e outras em tempo real. É uma questão muito pessoal e não há errados!
A única coisa que não me passou pela cabeça foi não divulgar informação acerca de infertilidade e de condições como endometriose ou síndrome de ovários policísticos. Acho importante abordar estes assuntos porque estas condições são cada vez mais comuns e ainda há muito preconceito no que a elas diz respeito.


Vai que dá- os timings e frustrações das inseminações

Fazer tratamentos faz com que tenhamos a nossa vida planeada ao dia e à hora. Isto de ter timings para tudo, de injecções, ecografias e inseminações faz com que a nossa vida fique ligeiramente limitada.
Chegámos a ir a Portugal de forma imprevista e improvisada, apareceu-me o período ainda em Portugal e marquei a nova ecografia para o meu regresso... Por acaso correu bem e eu sabia mais ou menos quando deveria ser a altura, a única vantagem destes timings todos cronometrados é que acaba por ser bastante previsível.

Lembro-me bem de ser frustrante, não é a logística mais fácil e depende um pouco da nossa postura. Chegámos a ir a Bruxelas de carro, ter com uns amigos, e dei injecções no carro (a primeira que me dei a mim própria) e até em casas de banho públicas. Eu tentei sempre descomplicar, depois de cada inseminação íamos passear e namorar para tentar dar normalidade ao dia...

Mas no final valeu a pena!



Só porque fiz tratamentos de fertilidade

Só porque fiz tratamentos de fertilidade não tenho de adorar estar grávida!

Só porque fiz tratamentos de fertilidade não tenho de adorar as noite complicadas!

Só porque fiz tratamentos de fertilidade não tenho de achar a amamentação algo fantástico!

Só porque fiz tratamentos de fertilidade não me julguem se tiver depressão pós-parto!

Só porque fiz tratamentos de fertilidade não sou muito diferente de qualquer outro pai ou mãe!


Quantas vezes me disseram para não dizer que não gostava de estar grávida, afinal tinha sido com esforço extra... Não gostei mas não me arrependo de cada injecção que tomei!
Muita gente esconde que faz tratamentos de fertilidade pelo que terceiros vão pensar e depois escondem o que sentem porque era algo que queriam tanto que não podem ter pensamentos menos positivos...
Sentimos o que tivermos de sentir independentemente se foi por "acidente", planeado, com tratamentos ou até adoptado. Não quer dizer que se prefira não ser mãe.


À terceira é de vez?

Fiz a 3a inseminação dia 3 de Abril, esperma em quantidade e qualidade (yay), mas doeu que se fartou. Provavelmente porque a bexiga estava cheia mas não dolorosamente cheia e aparentemente tem de ser mesmo mesmo cheia porque faz com que o útero fique super direitinho e desta vez, mesmo no fim do útero, estava ligeiramente curvado e o cateter raspou ali e doeu!! Doeu mesmo!

Doeu o espéculo (como sempre), doeu o cateter, ficou a doer algum tempo depois, doeu cada vez que passava de bicicleta nalguma irregularidade da estrada mas passou, cheguei a casa, estive com o Ricardo, fiz pilates e alongamentos e continuamos optimistas!

Dia 19 de Abril, o período não veio. Vou à clínica fazer análise ao sangue e, contrariamente ao que eu esperava e ao que outras pessoas esperavam, estava calma e tranquila. Até me disseram que eu estava era em negação, estava anormalmente calma.

Tira sangue, enfermeira impecável que teve paciência com esta paniquenta das agulhas, vai para o trabalho e espera pela chamada.
13h40- É para lhe dizer o que o resultado é mesmo bom. A hormona está num nível mesmo mesmo mesmo bom.

Claro que chorei, o meu colega até ficou preocupado porque eu nem conseguia falar e quando consegui balbuciar o que se passava deu-me um grande abraço e até ele quase chorou.
Liguei logo ao Ricardo, que ficou em êxtase, depois liguei à minha mãe, irmã e pai e no dia a seguir dissemos em directo via skype aos pais do Ricardo, claro que o pai dele nem disse mais nada de tão choroso.

Estou de 13 semanas, depois de alguns sustos, vieram normais. Até agora temos um feto saudável :D

Inseminação 101

in·se·mi·na·ção 
substantivo feminino
1. Depósito do sémen do macho nas vias genitais da fêmea.


Segundo o dicionário inseminação- depósito do sémen nas vias genitais da fêmea.
É exactamente isso, mas de uma forma terrível.

Primeiro temos de estar com a bexiga cheia para o útero estar bem esticadinho e se conseguir colocar o sémen o mais fundo possível.

Segundo, acho que ninguém acha que um espéculo é algo de confortável, eu odeio, odeio mesmo, de ir às lágrimas.

Terceiro limpam o colo do útero com uma gaze, altamente desconfortável mas tem de ser.

Por fim colocam o cateter, que foi a única coisa que não senti porque é bem fininho.

O melhor mesmo é depois poder fazer xixi! Já me doía a bexiga de tão cheia.
Fez-se, não é agradável, dói, mas não é o fim do mundo (se bem que se me vissem pensariam que é, pela quantidade de palavrões, ais e lágrimas).

E depois, upa para a bicicleta fazer a vida normal...

E não resultou

E veio o período... Como estava sem dores até nem estava à espera, mas agarrei em mim e liguei para marcar o recomeço de novo tratamento.
Estava bem, fiz um dia normal, o Ricardo estava também de folga, fomos tomar pequeno-almoço fora e tudo...

Chegou à noite, estava cansada e decidi ir para a cama, comecei num pranto, uma parvoíce pegada!! Sabia que a probabilidade era baixa, que possivelmente teríamos um longo caminho pela frente, mas não consegui e explodi!! Apesar de tudo soube muito bem, saiu tudo, o acumular do stress e ansiedade e a tristeza de não ter sido bem sucedido...

Próxima etapa, aumentar um bocadinho a quantidade de hormonas para ter dois folículos em vez de um, para aumentar a probabilidade de sucesso... 



1a IIU, o processo

Desde já lamento o texto extenso...

Primeira consulta começa com eco para verificar os ovários e o útero. Tudo normal. Sigo para a farmácia para levantar as hormonas (GonalF para desenvolvimento folicular e Ovitrelle para estimulação da ovulação) . Da parte da tarde volto para a instrução de como injectar. Acreditem, é fácil, mas eu sou uma maricas e quase desmaiei duas vezes, mas dei!


Segundo dia e o maridão decidiu interferir e dar-me ele as injecções. Afinal uma relação é para o bom e para o mau e eu tenho o melhor marido do mundo, que me dá as injecções, leva comigo maricas e a reclamar com ele e mesmo assim continua a fazê-lo...



Ao sexto dia, depois de um fim-de-semana fora, onde até injecções no carro e em casas-de-banho foram dadas, o Ricardo decide tentar dar devagar e com calma em vez de rápido, porque me andava a aleijar imenso. E funcionou!! Não doeu quase nada...


Dia 8, eco em que tenho um folículo de 12mm. Dia 10 nova eco e o folículo cresceu para 17,5mm (como esperado, média de 2mm por dia) e no dia 11 foi a última injecção de GonalF pois apenas precisamos de um folículo com mais de 18mm. 

Espermograma

Aqui por norma não fazem espermograma antes de começar um tratamento mas em Portugal, enquanto andei a ser seguida, foi-me recomendado o Ricardo fazer. Para despistar e porque já que eu andava a fazer tantos exames "vamos por o marido a trabalhar um bocadinho também".
Fez-se o exame e os resultados não foram ideais. Teratozoospermia (morfologia anormal de uma percentagem maior do que a normal, sim que ninguém tem todos os espermatozóides bonitos, perfeitos e móveis).
Voltando para a Holanda, levámos os resultados a uma das minhas consultas. Pediram um segundo exame (feito sensivelmente 1mês e meio depois do primeiro) e o resultado veio normal!

É normal haver variações, a alimentação influencia muito e em Portugal comemos muito pior do que aqui. Mais, um mês e meio é tempo mais que  suficiente para ter esperma totalmente novo. E ainda, quando cá cheguei e perante o primeiro resultado fui pesquisar e, mesmo não havendo dados conclusivos, comprei um suplemento vitamínico de omega 3, viamina D e DHA que poderia ter um efeito favorável na morfologia. Mal não fez, apesar de atribuir a melhoria do resultado maioritariamente ao nosso estilo de vida bem mais saudável do que em Portugal.

Aconselho a quem quer engravidar e possa ter alguma dificuldade a procurar um estilo de vida saudável, tanto para os homens como para as mulheres, ajuda na fertilidade de ambos e só traz benefícios.


Endometriose e infertilidade

Não andam necessariamente de mão dada mas, por norma, há uma redução de fertilidade. Quando me diagnosticaram após a cirurgia e visto ter ovulações irregulares e, por vezes, não ovular, foi-me aconselhado fazer IIU com estimulação.

Consiste em recorrer a hormonas para garantir ovulação, rastrear o desenvolvimento dos folículos, induzir a ovulação e depois inseminar in vivo (não in vitro) ou seja, colocar o esperma dentro do útero. Isto aumenta a probabilidade dos espermatozóides encontrarem o óvulo e eventualmente se dar fecundação. Depois é deixar o corpo seguir o curso natural...

É um método que, sendo artificial, é dos mais próximos possível do natural. Não há extracção de folículos dos ovários nem inseminação in vitro e posterior implantação no útero. Até certo ponto deixa-se o organismos tratar da maioria das coisas sozinho mas dá-se um empurrão inicial...